Negócios 13/07/2026 5 min de leitura

Após crescimento recorde de pequenos negócios, desafio passa a ser gestão e sobrevivência em 2026

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gestão e sobrevivência

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Com 4,6 milhões de novos pequenos negócios abertos entre janeiro e novembro de 2025, o Brasil registrou o melhor desempenho da série histórica, segundo dados divulgados pela Agência Brasil com base em levantamento do Sebrae. O volume supera os 4,1 milhões de empresas criadas em 2024 e representa um crescimento de 19% no período. Os pequenos negócios responderam por 97% das empresas abertas no país, sendo 77% microempreendedores individuais (MEIs).

O número reforça o protagonismo do empreendedorismo na economia brasileira, especialmente nos setores de serviços e comércio. Mas, enquanto a abertura de empresas bate recordes, outro dado chama atenção: o ritmo de fechamento também permanece elevado.

De acordo com o Mapa de Empresas do Governo Federal, no primeiro quadrimestre de 2025 foram abertas 1.815.912 empresas e fechadas 973.330, resultando em um saldo positivo de 842.582 negócios. Ao final do período, o Brasil somava 23.205.843 empresas ativas

O ambiente de formalização está mais ágil  —  o tempo médio de abertura foi de 21 horas no primeiro quadrimestre de 2025 — mas a facilidade para abrir não garante a permanência no mercado.

A sobrevivência ainda é o maior obstáculo

Os números de abertura ajudam a explicar o entusiasmo do cenário, mas os dados de longevidade empresarial revelam um quadro mais desafiador. Levantamento com base em estatísticas do Bureau of Labor Statistics (BLS), compilado pelo Commerce Institute, indica que 20,4% das empresas encerram atividades no primeiro ano. Em cinco anos, quase metade (49,4%) já fechou as portas. Em dez anos, 65,3% deixam de existir. Em média, apenas 34,7% sobrevivem após uma década.

Esses índices mostram que o risco não está apenas no momento da abertura, mas na incapacidade de sustentar o negócio ao longo do tempo. E as causas não são, majoritariamente, externas. Segundo o mesmo levantamento, 29% das empresas falham por falta de caixa, 18% enfrentam problemas relacionados a precificação e estrutura de custos e 17% não conseguem consolidar um modelo de negócio consistente.

Na prática, isso significa que a dificuldade não está em formalizar, mas em estruturar. Sem planejamento financeiro, controle de despesas, definição clara de margem e leitura periódica dos números, o empreendedor acaba tomando decisões reativas. O crescimento, quando ocorre, vem desorganizado. E, quando a receita oscila, o impacto é imediato no caixa.

O gargalo mudou: da formalização à gestão

Para especialistas, o cenário de 2026 exige uma mudança de mentalidade. Se nos últimos anos o desafio era simplificar a abertura de empresas, agora o foco passa a ser organização, controle financeiro e previsibilidade.

Rodrigo Schluchting, CEO da Ever Contábil — empresa que atua com contabilidade consultiva, estruturação financeira e apoio estratégico para micro e pequenos empresários — avalia que o Brasil vive uma nova fase do empreendedorismo.

“Hoje abrir empresa é rápido. O problema é manter. Muitos empresários começam pelo impulso ou pela necessidade, mas continuam operando sem visão clara de fluxo de caixa, sem separação entre pessoa física e jurídica e sem planejamento tributário. O crescimento exige método”, afirma.

Segundo ele, é comum encontrar negócios que faturam, mas não sabem exatamente quanto lucram. “Quando o empresário não acompanha indicadores simples, como margem, ponto de equilíbrio e custo fixo mensal, ele perde a capacidade de prever cenários. E quem não prevê, reage. E reagir custa caro.”

Caixa, precificação e impostos: os gargalos invisíveis

O aumento no número de MEIs — que representaram mais de 75% das novas empresas abertas no primeiro quadrimestre de 2025 — mostra que grande parte dos negócios nasce com estrutura enxuta e baixa complexidade jurídica. No entanto, à medida que evoluem, passam a enfrentar decisões mais sofisticadas, especialmente na área tributária e financeira.

Entre os principais gargalos apontados por especialistas estão:

  • Falta de controle estruturado de receitas e despesas;
  • Precificação baseada em percepção, e não em custo real;
  • Desorganização fiscal e ausência de planejamento tributário;
  • Mistura de finanças pessoais e empresariais;
  • Crescimento sem provisão de impostos e reservas.

Rodrigo explica que muitos empreendedores veem a contabilidade apenas como obrigação fiscal. “Quando a contabilidade é tratada só como emissão de guias, o empresário perde a principal função dela: transformar números em decisões. Formalização não é só ter CNPJ. É entender o que aquele CNPJ está produzindo de resultado.”

2026: profissionalização como diferencial competitivo

Com quase 1 milhão de empresas encerrando atividades apenas nos quatro primeiros meses de 2025, especialistas apontam que o próximo passo do empreendedorismo brasileiro é a profissionalização da gestão.

Isso envolve práticas relativamente simples, mas frequentemente negligenciadas: organizar fluxo de caixa semanalmente, separar contas pessoais das empresariais, acompanhar mensalmente indicadores financeiros, provisionar impostos antes do vencimento, revisar precificação com base em custo real e manter reservas para períodos de oscilação.

Para Rodrigo Schluchting, o empresário precisa assumir um papel mais estratégico dentro do próprio negócio. “Empreender não pode ser apenas executar. É preciso olhar para os números com a mesma atenção que se olha para as vendas. Quando o empresário ativa esse modo mais estratégico, ele sai da sobrevivência diária e passa a construir previsibilidade.”

Se 2025 ficou marcado pelo recorde de abertura de pequenos negócios, 2026 tende a ser lembrado como o ano em que a sustentabilidade financeira entrou definitivamente na agenda do empreendedor brasileiro. Mais do que abrir empresas, o desafio agora é estruturá-las para durar.

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